Regenerar Ambientes
Diário de Bordo de Luísa Salvador. Umbigo - Ponto d’Orvalho 2024
‘O Ponto d’Orvalho é um festival que teve recentemente a sua quarta edição. Entre 13 e 15 de Setembro de 2024, de sexta-feira a domingo, a programação prometia um encontro que celebrava a paisagem, a comensalidade e as artes. Tudo num ambiente de comunalidade num local com características únicas e vivas — a Herdade do Freixo do Meio, na zona de Montemor-o-Novo.
A premissa era esta. O que se segue é um diário de bordo com um apanhado de vivências.’
‘A ideia de ir para um festival, que nem é tanto festival, mas mais um encontro de pessoas curiosas por determinadas temáticas, num fim-de-semana de Setembro, que não parecia tanto Setembro, mas mais Agosto, é logo em si um bom presságio.
A viagem começou bem, com uma boleia.
A boleia é o deixar ir, os horários não são nossos. Duas amigas que iam para o festival, a ideia era tentar desligar. A meio do caminho, com tanta conversa, já estávamos a chegar a Alcácer do Sal. Achávamos mutuamente que alguém dominava certamente o trajecto. Não há melhor maneira de começar a afastar da origem. Eventualmente cheguei a Montemor-o-Novo, onde seria a minha estadia. É um lugar muito especial, tão perto de Lisboa. Tem conventos com usos particulares. Um dado a artes performativas, outro para as artes visuais, multimédia e cerâmica. Montemor tem um pulsar particularmente vibrante, com os colectivos e associações a fazerem trabalhos únicos, com investigação séria sobre materiais e saberes que aqui ninguém quer que caiam em esquecimento. É um lugar de actuação, de vida. Alguns têm sido parceiros do Ponto d’Orvalho, como é o caso da Cooperativa Minga ou das construções em terra do Cru Atelier. Este ano não foi excepção (…)
(…) Foi também em torno deste bem tão essencial que terminou o encontro do Ponto d’Orvalho, com uma performance de Jacira da Conceição que pedia ao público que a acompanhasse no transporte de ânforas de água até à agrofloresta. Não deixei de pensar como os rituais nos obrigam a parar e olhar novamente para o que já conhecemos, com uma certa reverência e humildade.
‘Nada do que achamos conhecer, é para sempre, nada do que nos é essencial, está eternamente disponível. É preciso regenerarmos os solos, os recursos, os cursos da água, os terrenos milenares. É preciso regenerarmo-nos, uns aos outros, e num sentido comum. A força colectiva é uma aprendizagem antiga, assim como o regenerar ambientes nossos, é uma aprendizagem para o futuro. O Ponto d’Orvalho foi uma amostra bela do que podemos ser quando estamos atentos.’
'A terceira edição do Ponto d’Orvalho teve lugar nos dias 16, 17 e 18 de setembro na Herdade do Monte e na Quinta das Abelhas, em Montemor-o-Novo. O festival, mediante o seu programa multidisciplinar, pretendeu esclarecer as várias formas através das quais os seres humanos podem aprender a pensar – e eventualmente viver – como uma floresta. A proposta deste encontro quis convidar os participantes a desvendar as diferentes maneiras como estes ecossistemas altamente complexos, mas frágeis, podem estimular uma sensibilização mais profunda para as diferentes teias de interligação entre os vários seres.’
Colaboração e Companheirismo
Diário de Bordo de Mattia Tosti. Umbigo - Ponto d’Orvalho 2022
‘Se o pensamento das florestas acabou por constituir o tema principal do festival, durante o primeiro dia de Ponto d’Orvalho, a transmissão oral, quer em narrações ou canções pareceu ser o meio escolhido para veicular o conhecimento, as ideias e os sentimentos.’
(…) Quanto mais estudamos a natureza, mais nos apercebemos de que a tendência é a associação e a colaboração. Por isso, a cultura tem ainda muito a aprender com a interligação do mundo natural. Neste sentido, ao reunir numa escala íntima um grupo heterogéneo de pessoas que trabalham em diferentes disciplinas e estimulando colaborações entre elas, o Ponto d’Orvalho abordou o seu tema norteador (Pensar Como Uma Floresta) não tanto em cada gesto individual, mas mais como um grupo de vozes diversificado e coeso, a partir do qual um jogo harmonioso de relações e afinidades se desdobra durante – e depois – do festival. Neste sentido, podemos dizer que o Ponto d’Orvalho tem conseguido absorver um dos ensinamentos que a cultura pode aprender com a natureza, e parece estar decidido a aprender nas edições seguintes outras noções que o aproximará não só à capacidade de pensar, mas também de agir como uma floresta.’